Belém recebe programação especial voltado a vítimas de escalpelamento
Acidentes com barcos fizeram centenas de vítimas no Pará nas últimas décadas, a maioria mulheres que enfrentam dificuldade de acesso a tratamentos e estigmatização. Por trás do uso de barcos como transporte pelas comunidades ribeirinhas na Amazônia, está um acidente que marca toda uma vida. No Pará, centenas de pessoas foram vítimas nas últimas décadas do chamado escalpelamento, quando o couro cabeludo é arrancado bruscamente.
No estado que receberá líderes mundiais para a Conferência da ONU sobre o Clima (COP 30), a vida de muitas mulheres que tiveram seus cabelos e outras partes do corpo arrancadas após ficarem presas em um motor de barco conta com limitações e descaso, muitas vezes, com as próprias vítimas sendo culpadas pelo acidente.
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Por décadas, a ocorrência do escalpelamento foi esquecida, e o amparo a quem sofreu os acidentes dependeu da boa vontade de médicos que organizavam mutirões voluntários para realização de cirurgias.
Desde 2010, 28 de agosto passou a ser o Dia Nacional de Combate e Prevenção ao Escalpelamento, reforçando medidas para combater o problema, em especial a fiscalização para que motores dos barcos não operem descobertos.
As proteções de motores são apontadas como responsáveis por uma queda no número de casos e são, inclusive, item obrigatório recomendado em embarcações pela Marinha, que costuma realizar campanhas educativas em comunidades ribeirinhas.
Acidentes com barcos, principalmente sem proteção em motores, fizeram centenas de vítimas no Pará nas últimas décadas, a maioria mulheres
Valéria Martins/g1
Um estudo de janeiro de 2024 feito pela Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa) contabilizou 483 ocorrências de escalpelamento no Pará entre os anos 1960 e 2022.
O maior número de casos (22) foi registrado em 2009. Dentre as vítimas, 98% são mulheres, com uma predominância de 67% entre crianças e adolescentes de 2 a 18 anos de idade.
Em menor grau, Amapá e Amazonas são outros estados afetados pelo problema. Com dificuldade na notificação já que os registros não são obrigatórios, há ampla visão de que os números são subnotificados.
Fapespa traça perfil de vítimas de escalpelamento no Pará
“Muda a nossa vida”
Raíza Oliveira, hoje com 23 anos, sofreu escalpelamento quando tinha apenas oito anos de idade.
Além das cirurgias iniciais de reconstrução plástica, as vítimas demandam amplo apoio psicológico e outros acompanhamentos, como das funções neurológicas e auditivas, muitas vezes comprometidas no acidente.
“A partir do momento que sofremos o acidente, muda a nossa vida”, afirma.
Moradora ribeirinha de Curralinho, no interior do Pará, ela tem de se deslocar para Belém para realizar os tratamentos na Santa Casa de Misericórdia. Cada trecho da viagem, feita às vezes duas vezes por mês, dura quase um dia.
Raiza Oliveira em 2022
Santa Casa/Divulgação
“A retomada da autoestima é muito difícil, são sequelas por toda a vida. Há uma tentativa de acolher as vítimas, mas é complicado haver uma reconstrução total. O impacto nestas pessoas é muito significativo, afetando inclusive questões emocionais”, afirma Flávia Lemos, professora de Psicologia Social da Universidade Federal do Pará (UFPA).
Vítimas como culpadas
Uma queixa constante no meio é um tipo de visão que tende a culpar as vítimas pelos acidentes. Especialistas apontam que é constante a postura das populações locais que responsabiliza as jovens por supostamente não se cuidarem. Neste sentido, o julgamento reduz o impulso para que estas pessoas reivindiquem seus direitos e busquem novas reparações.
“Nós começamos mais tímidas, já que as pessoas falam que é nossa a responsabilidade pelo acidente”, conta Oliveira.
Engajada no tema, a jovem observa que a mobilização melhorou nos últimos anos, com muitas vítimas se articulando através de redes sociais para trocar informações e fortalecer a causa em prol de suas demandas.
“O conhecimento sobre os acidentes melhorou, vemos isso como uma conscientização. Há dez, 15 anos, tudo era mais difícil. Mesmo assim, ainda se culpa muito as vítimas, e há certo preconceito com as ribeirinhas”, conta.
Na visão de Lemos, o fato de o escalpelamento normalmente ser causado por um cabelo grande e solto acaba contribuindo para uma maior culpabilização das vítimas, uma vez que há visão de que houve desleixo por parte das envolvidas.
Casos de escalpelamento atingem principalmente mulheres no Pará
TV Liberal/Reprodução
Acompanhamento constante
Oliveira frequenta o Espaço Acolher na Santa Casa de Belém, que virou uma grande referência estadual no atendimento às vítimas de escalpelamento e no acompanhamento posterior aos cuidados iniciais.
Criado em 2006, o núcleo faz parte do Programa de Atendimento Integral às Vítimas de Escalpelamento (Paives), uma iniciativa do Pará para concentrar as vítimas e padronizar o atendimento.
Jureuda Guerra, psicóloga hospitalar que atende no Acolher, lembra que, entre a década de 1960 e o começo dos anos 2000 não havia protocolo de atendimento nos casos de escalpelamento.
Como resultado, vítimas deixavam por vezes de realizar exames importantes, como ressonância magnética e tomografia craniana. Hoje, a partir do atendimento inicial nas unidades mais próximas de saúde, há um encaminhamento à Santa Casa.
Por sua vez, em um estado em que o tempo percorrido até a capital partindo de zonas ribeirinhas pode chegar facilmente a dois dias, o deslocamento para seguir com os tratamentos é um grande desafio. “Tenho casos de crianças que não vem há mais de três anos, e seguem perdendo as consultas”, conta Guerra.
Jureuda Guerra
Divulgação
Os pacientes dependem do chamado TFD – Tratamento Fora de Domicílio, custeio para o deslocamento que é de responsabilidade dos munícipios. No entanto, a psicóloga afirma que muitas prefeituras não repassam os valores às vítimas e criam impedimentos para a viagem à capital.
Mesmo depois de adultos, as pacientes costumam seguir dependendo de acompanhantes para realizar os deslocamentos, tornando a viagem mais complicada. Durante o trajeto, as vítimas podem ter crises de encefaleia, que podem, por exemplo, ocasionar em desmaios ou situações mais graves.
Sobre a viabilidade de realizar tratamentos mais próximos às regiões ribeirinhas, Guerra é cética e não crê que é uma alternativa, uma vez que as unidades locais não oferecem a mesma estrutura presente na capital.
“Tentam nos impor que é um favor”
Apesar de ter sido um aliado fundamental das vítimas até hoje, há temores de que a ação voluntária possa ofuscar políticas públicas efetivas. “Muitas vezes, o voluntariado possui uma perspectiva assistencialista, pontual e provisória”, avalia Lemos.
Além de mutirões de cirurgia, são comuns ações voltadas para a doação de cabelos às vítimas.
“As pessoas tentam impor na nossa cabeça que estão nos fazendo um favor”, aponta Oliveira.
Regina sobreviveu ao escalpelamento e hoje atua na confecção de perucas usadas por outras sobreviventes
Cristino Martins/O LiberaL
Atualmente, um projeto de lei tramita no Congresso para garantir às vítimas de escalpelamento o acesso imediato e gratuito a cirurgias reparadoras e reconstrutivas para a correção das lesões provocadas pelo acidente, assim como acompanhamento social e psicológico.
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O tema, no entanto, encontra dificuldades de avançar em Brasília. À DW, a senadora Damares Alves descreve o tema como estigmatizado. Um dos projetos dela é instituir uma pensão especial às vítimas.
“Essas mulheres não conseguem trabalho, não conseguem uma renda, especialmente por causa da aparência. Algumas são até largadas pelos companheiros. É uma forma de garantir a subsistência dessa mulher e dos filhos, para garantir tratamento e medicação para as dores que sentem”, defende
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Fonte: O Liberal